Maria Tereza Maldonado
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A paz e o ano internacional do ecoturismo


Em 1994, a UNESCO lançou o Programa Mundial da Cultura da Paz, na esperança de promover uma mudança de mentalidade coletiva, condicionada por séculos de cultura de guerra, refletida, inclusive nos livros de História em que todos nós estudamos que sempre deram muito mais ênfase aos "construtores da guerra" do que aos "construtores da paz".

Para mostrar que, no dia a dia, todos nós podemos atuar como "construtores da paz", o conceito de paz foi desdobrado em três vertentes:


a) A paz interior – a busca da serenidade e da harmonia, mesmo em épocas mais turbulentas da vida, o que nos permite enfrentar problemas e obstáculos com mais determinação e esperança de superação; o cultivo da alegria e do prazer nas pequenas coisas do cotidiano, os meios de descarregar o estresse de maneira saudável;

b) A paz com os outros – a busca de recursos de comunicação que permitam a resolução não violenta de impasses e conflitos nos relacionamentos familiares, sociais e profissionais (mediação, consenso e "acordos de convívio", que possam atender de modo razoável as necessidades das partes envolvidas no conflito); a expansão da solidariedade, participando de projetos sociais que buscam a melhoria das condições de vida da população carente e de recursos de erradicação da pobreza;

c) A paz com o ambiente – o planeta Terra, a nossa grande casa, está sendo violentamente agredido (desmatamento desenfreado, poluição do ar e da água de rios, lagos, mares e oceanos que resultam em perigosas alterações climáticas e extinção de inúmeras espécies) a ponto de prejudicar a qualidade de vida de todos. É essencial que pessoas de todas as idades procurem desenvolver a atitude de preservação ambiental. A possibilidade de cuidar bem do meio ambiente inclui projetos de recuperação de áreas degradadas e meios de impedir a continuidade da destruição dos recursos naturais (que não são infinitos), além da valorização da educação ambiental para crianças, jovens e adultos (evitar o desperdício de água, tratar adequadamente do lixo, não usar produtos que prejudiquem a camada de ozônio, utilizar produtos de limpeza biodegradáveis, só para citar algumas das centenas de hábitos que podem ser formados no cotidiano da vida de todos nós).


Há um trabalho imenso a ser feito no sentido de desenvolver uma nova consciência de responsabilidade coletiva que inclua mais participação na sociedade, o cuidado com o meio ambiente, a ampliação das redes de solidariedade e o conceito de "cidadania planetária". Cada um de nós pode contribuir, em diferentes graus, para melhorar (ou para piorar) as condições de vida não só do lugar em que habitamos, mas do próprio planeta. Para que cada um de nós possa realmente viver melhor e em paz, é preciso que todos possam ter acesso às condições básicas de uma vida digna.

O ano de 2001 foi o Ano Internacional do Voluntário. O Brasil foi um dos países que mais se destacaram em termos de crescimento do contingente de voluntários em projetos sociais, contando, inclusive com a adesão de muitas empresas que estimulam seus funcionários a tecer essas grandes "redes solidárias", nas áreas de saúde, educação e meio ambiente, entre outras. Há, portanto, a tendência de expansão da chamada responsabilidade social das empresas.

Em 2002 – o Ano Internacional do Ecoturismo – a intenção é estimular a expansão de projetos de desenvolvimento sustentável, melhorando a qualidade de vida das comunidades que vivem em regiões propícias à prática do ecoturismo, reforçando a postura de utilizar os recursos naturais sem destruir o meio ambiente. Com isso, busca-se estimular a conservação do patrimônio natural. Afinal, o Brasil é a nação mais rica do mundo em biodiversidade e apenas o rio Amazonas contém cerca de 17% de toda a água doce do planeta. Os mares brasileiros contêm cerca de 10% das espécies de peixes do mundo e a exploração sustentável dos oceanos com sua riqueza ainda em grande parte desconhecida é a grande esperança do futuro.

Crianças e jovens podem ser incentivados – dentro das famílias, das escolas e de outras instituições da sociedade – a se desenvolverem como "construtores da paz" em todas essas dimensões do atual conceito de paz. Em muitas situações, eles são agentes transformadores da realidade em que vivem. Um desses programas promissores é o Projeto Pequenos Guias, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em Manaus. Após a capacitação em educação ambiental, crianças entre dez e catorze anos guiam os turistas que visitam o Bosque da Ciência e, até os dezessete, têm oportunidade de adquirir outros conhecimentos para atuar nas comunidades em que vivem. Muitos passam a ter ideias próprias e elaborar projetos de preservação ambiental e melhoria da qualidade de vida.

No mundo com tantos episódios de violência, é imprescindível expandir todo e qualquer caminho que resulte na formação de novas gerações de pessoas mais solidárias, que estejam determinadas a construir justiça social e que saibam resolver impasses e conflitos de modos não violentos, cuidando melhor de si mesmas, dos outros e do ambiente em que vivem.

* Este artigo aborda temas contidos nos livros "Os Construtores da Paz – Caminhos da Prevenção da Violência" (ed. Moderna) e "Florestania – A Cidadania dos Povos da Floresta" (ed. Saraiva).

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Maria Tereza Maldonado
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