Maria Tereza Maldonado
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Famílias com adolescentes


O mapeamento do genoma humano sugere que todos nós viemos da mesma família original. A globalização e o aumento do fluxo migratório estão criando uma nova dinâmica familiar nas diversas culturas, sociedades e religiões. Nesses novos grupos sociais, os valores são plurais, multiétnicos e multiculturais. Precisamos buscar denominadores comuns entre os povos de diferentes contextos e objetivos para construir um futuro comum. Nesse processo, o papel da família é extremamente relevante, uma vez que os adolescentes consideram a família como elemento básico de unidade e vínculo. As famílias têm importância crucial na educação de cidadãos globais no sentido de criar uma sólida cultura de tolerância pela diversidade, juntamente com o reconhecimento da semelhança essencial entre todos os seres humanos.

Ainda estamos atravessando a Revolução Industrial, a Revolução Tecnológica e a Revolução do Conhecimento. Estamos precisando da Revolução da Consciência. É necessário encontrar maneiras eficazes de aumentar a consciência de que somos uma família de bilhões de membros vivendo na mesma casa planetária. Este é o fundamento da ética de cuidar bem de nós mesmos, dos nossos relacionamentos e do ambiente. Essa noção de que pertencemos a uma família nuclear, extensa e global deve ser desenvolvida juntamente com um profundo respeito por todas as formas de vida, reconhecendo a extrema importância da teia da vida.

Do lar individual ao lar planetário: a educação para a cidadania global deve começar na família nos primeiros anos de vida. Porém, como nosso foco é a adolescência, podemos aprofundar nosso conhecimento sobre as maneiras de fortalecer a proteção e reduzir os riscos para os adolescentes, com o propósito de estimular um bom desenvolvimento nesse período tão significativo do ciclo vital, cheio de oportunidades e desafios.

Em nossa família global 25% são adolescentes. No Brasil, há 34 milhões de pessoas entre 15 e 24 anos (20% da população total). Portanto, políticas públicas para essa população têm uma importância estratégica crucial para o desenvolvimento da nação.

Um dos efeitos da globalização é o aumento da migração. Na medida em que a cultura interage com o ciclo vital da família em todas as etapas, a migração significa a coexistência de duas culturas, duas línguas, filosofias de vida e valores diversos. No novo país, a família vivencia o choque cultural: a primeira geração costuma reagir tentando fortalecer a unidade familiar. O processo de aculturação conduz à integração entre novos e antigos valores culturais. Muitos pais da primeira geração interpretam o estilo de vida aculturado dos seus filhos como sinal de que eles os estão valorizando menos, ligando-se mais aos amigos do que à família. Embora todas as famílias tenham conflitos de valores entre as gerações de pais e filhos, esses conflitos são exacerbados nas famílias pobres que migraram e tornam-se mais intensos na adolescência.

Na maioria dos países, as principais mudanças culturais também se refletem nas organizações e nos relacionamentos familiares. Precisamos refletir mais a respeito de como essas mudanças transformaram a experiência do crescimento, principalmente devido a fatores tais como:

O papel da mulher na sociedade mudou profundamente nas últimas décadas. Quando não tiveram filhos na adolescência, tendem a adiar a maternidade para construir a estabilidade profissional; muitas querem passar um período de vida independente antes do casamento; muitas estão adiando a maternidade para bem depois dos trinta, e se recusando a permanecer em relações amorosas violentas; mas, após o divórcio, tendem a empobrecer.

Com o aumento do divórcio, das novas uniões, do percentual de filhos adotivos e biológicos sem vínculo conjugal, a pesquisa sobre famílias começou a focalizar a área comum a todos esses tipos de organização familiar, procurando descobrir as particularidades e os desafios específicos a cada uma delas. Homens e mulheres com filhos adolescentes que fazem novas uniões, por exemplo, enfrentam altos níveis de tensão quando lidam com questões tais como: dificuldade do não-genitor colocar limites e estruturar a disciplina; conflitos de lealdade, estratégias de jogar um contra o outro; atração sexual entre padrasto e enteada, madrasta e enteado ou entre os irmãos de convívio; dificuldade de aceitar a sexualidade de pai e mãe com os novos parceiros.

Porém, apesar desses desafios específicos, a conclusão geral é que cada organização familiar pode construir um lar harmônico ou disfuncional. A diferença é a qualidade do vínculo entre os membros da família: quando amor, respeito, cooperação e generosidade predominam, a resiliência familiar é fortalecida e seus membros estarão mais preparados para enfrentar os desafios da vida.

A família é um sistema que vai se modificando com o decorrer do tempo: é importante considerar o ciclo vital das pessoas, dos casais e das famílias. Com os adolescentes, as principais tarefas dos pais são:

Para a maioria das famílias, não é fácil encontrar o equilíbrio entre a postura de proteção e a atitude de estimular a entrada no mundo de responsabilidades e compromissos da idade adulta. Porém, ao superar a confusão inevitável, a maioria das famílias consegue modificar regras e limites, reorganizando-se para permitir que os adolescentes tenham mais autonomia. As solicitações para obter mais independência forçam a renegociação de papéis na família envolvendo, minimamente, três gerações: pais e avós também redefinem seus relacionamentos, assim como os irmãos. Os pais precisam permitir que o filho cresça e, ao mesmo tempo, permanecer disponíveis para orientá-lo e protegê-lo sempre que necessário.

As pesquisas com adolescentes em diferentes países mostram grandes semelhanças: a família é a fonte de apoio principal; a maioria dos adolescentes gosta muito dessa etapa da vida; o otimismo predomina e eles acreditam que podem mudar o mundo. As preocupações também são semelhantes em diferentes culturas: saúde, integridade familiar, o futuro (que inspira ao mesmo tempo esperança e temor), amizade, amor, drogas (ilegais e legais), doenças, oportunidades de emprego, instabilidade global, experiências sexuais e violência.

Em diferentes culturas, as famílias também apresentam preocupações semelhantes e enfrentam o desafio de reduzir os fatores de risco: muitas percebem que a pressão e a influência do grupo de amigos é forte, tanto para o bem como para o mal; percebem que a ligação com a escola é extremamente importante, principalmente quando lá encontram modelos positivos de identificação. Uma pesquisa realizada pela equipe da Fiocruz (Rio de Janeiro) descobriu que o vínculo afetivo intenso com os professores que atuam como modelos positivos de identificação é uma das principais diferenças entre os adolescentes em conflito com a lei (em que esse vínculo não se fez) e seus irmãos não infratores.

A maioria das famílias também se preocupa com o início precoce das relações sexuais e com a gravidez indesejada, especialmente nas adolescentes. Infelizmente, um grande número de famílias não se preocupa na mesma proporção com os rapazes que se tornam pais muito antes de terem maturidade para assumir tamanha responsabilidade. As doenças sexualmente transmissíveis também são fonte de preocupação, nem sempre traduzidas em esforços eficazes de prevenção, especialmente nos países em que o machismo ainda é muito forte, como acontece na América Latina.

Uma pesquisa da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard enfatizou alguns princípios básicos da intervenção familiar para diminuir os riscos e aumentar a proteção na adolescência. Os pais precisam:

A Associação Americana de Psicologia considera que, para prevenir a violência e fortalecer a resiliência, os adolescentes precisam aperfeiçoar habilidades para:

A família pode oferecer contribuições importantes para construir um lar seguro e afetuoso: a auto-estima do adolescente está associada à percepção positiva dos pais. O interesse dos pais pelo bem-estar dos filhos parece ser um dos fatores principais para a construção de uma boa auto-estima nos adolescentes.

Muitos pais não se acham suficientemente competentes para educar seus filhos. As mães de adolescentes são as que se acham menos competentes: isso aponta para a necessidade de obter informações relevantes sobre as maneiras de lidar eficazmente com a crescente necessidade de independência, com as flutuações emocionais e com as oscilações de humor dos adolescentes. Para muitas famílias, a adolescência é a época mais estressante do ciclo vital. Há muito que fazer para ajudar os adolescentes a desenvolverem habilidades de comunicação positiva (especialmente, a capacidade de expressar sentimentos e ouvir sem criticar), gerenciamento de conflitos, solução de problemas e administração financeira.

As famílias são muito importantes: as políticas públicas precisam contribuir para a boa preparação dos pais, promovendo o trabalho com grupos de pais e filhos em que se enfatize a utilização da escuta sensível como meio principal de entendimento e de comunicação eficaz. Nas famílias em que adultos e adolescentes aprendem juntos a melhorar a assertividade, a canalizar a raiva e a controlar os impulsos, é possível construir uma base sólida de solução de conflitos.

O reconhecimento de que a violência é um comportamento aprendido que pode ser desaprendido é a base dos programas cujo objetivo é transformar a conduta antissocial em habilidades construtivas. Se os adolescentes fazem parte do problema, também fazem parte da solução. Por meio desses projetos, as famílias aprendem a reconhecer e a incentivar as habilidades construtivas dos adolescentes, criando oportunidades para desenvolvê-las.

O aperfeiçoamento das habilidades de comunicação é outro caminho importante na prevenção da violência: quando adultos e adolescentes conseguem considerar os conflitos como oportunidades para criar boas soluções, aprendem a atacar o problema sem se atacarem reciprocamente.

Muito se tem escrito sobre a influência da família sobre as crianças e os adolescentes, mas ainda precisamos de muitas pesquisas sobre a influência que eles exercem sobre suas famílias e as comunidades em que vivem. Isso se revela especialmente quando os jovens atuam como voluntários em projetos sociais e de preservação ambiental, em que são capacitados para atuar como modelos positivos para outros adolescentes. Em vários países, há inúmeros programas desse tipo, focalizando a educação em saúde, em sexualidade e em proteção ambiental.

O voluntariado é um dos melhores caminhos de preparação para a cidadania participativa. Além disso, em muitos países, o Terceiro Setor está oferecendo muitas oportunidades de emprego. Quando os adolescentes participam desses programas, não apenas transmitem informações úteis a seus pares, mas também influenciam positivamente suas famílias e comunidades. Reconhecer as possibilidades de crianças e adolescentes como poderosos agentes de mudança é um caminho a ser explorado e desenvolvido na formação de vínculos mais sólidos com a família humana global.

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Maria Tereza Maldonado
Fotógrafo: Edu Lissovsky | Desenvolvedor: forpix internet