Maria Tereza Maldonado
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Casamento e formação da família


No contexto histórico, a livre escolha do cônjuge e o casamento por amor é um acontecimento recente. Ainda há sociedades em que são as famílias que elegem o par dos filhos. A escolha da pessoa com quem decidimos nos casar é complexa: há inúmeros motivos conscientes e inconscientes que atuam neste campo, além dos sonhos e das expectativas que esperamos que o cônjuge preencha.

Por todos esses motivos, no trabalho com casais é preciso focalizar a diferença entre o casamento sonhado e o casamento real, assim como a possibilidade de modificar as expectativas iniciais e fazer novos acordos de convívio, na medida em que o tempo passa e o ciclo vital do casal e da família atravessa transições e crises, numa teia de sentimentos e acontecimentos variados (amor, raiva, mágoa, decepções, traições, solidariedade, companheirismo, e muitas outras coisas).

Quando chega o primeiro filho (seja biológico ou adotado), acontece o nascimento da família. O impacto da maternidade e da paternidade é significativo: o homem e a mulher gestam um novo aspecto da identidade pessoal. Assim como na formação do casal, fatores conscientes e inconscientes influem na busca do filho, seja em gestações planejadas ou acidentais. Como o homem e a mulher vão se ver e como vão ser vistos como pai e mãe? Quais as mudanças na sexualidade, na intimidade, na organização da rotina da casa, em decorrência da gravidez e dos primeiros meses após o nascimento? Como ficarão os relacionamentos com a família extensa (na difícil fronteira entre ajuda e interferência)? Como vão integrar as inevitáveis diferenças de estilos parentais (para educar e disciplinar os filhos)? Como conseguirão construir um equilíbrio entre a vida de casal e a vida parental?

Transições e crises constituem períodos marcantes de mudanças não só no ciclo vital do indivíduo, mas também no do casal e no da família. É necessário criar novos recursos para enfrentar a situação que se apresenta. O indivíduo, o casal e a família podem sair fortalecidos e enriquecidos das crises e transições, mas, por outro lado, há passagens que resultam em rompimentos dos vínculos, como no caso do término do casamento. O crescente número de divórcios e de novas uniões resultou na formação de novas organizações familiares e diferentes maneiras de viver um relacionamento amoroso estável, que nem sempre envolve a ida ao registro civil e nem sequer a coabitação.

Cada organização familiar tem características e desafios especiais, para alcançar o objetivo de formar um lar satisfatório. Quando o casal se separa e passa da organização familiar de pais casados para constituir dois lares monoparentais, o principal desafio é manter a sociedade parental e desfazer a sociedade conjugal, procurando uma convivência compartilhada entre mãe, pai e filhos. A separação não é necessariamente traumática para os filhos, mas é preciso evitar cair nas áreas de risco, que acontece quando o ódio e o desejo de vingança com relação ao ex-cônjuge fazem com que os filhos sejam colocados "no meio da linha de fogo", intensificando os conflitos.

As novas uniões dos pais resultam na formação das famílias de recasamento, que enfrentam desafios especiais, tais como a dinâmica dos "filhos moradores" e dos "filhos visitantes", as diferenças de valores, hábitos e maneiras de educar "os filhos dele" e os "filhos dela", a dificuldade de delimitar fronteiras e acordos de convívio nos novos relacionamentos e nos contatos com os ex-parceiros de um de e outro.

Portanto, no trabalho com casais e famílias, é preciso ampliar a visão para entender o funcionamento peculiar das várias formas atuais de ser casal e de ser família para procurar, dentro da multiplicidade dessas organizações vinculares, o caminho para o convívio harmônico, mesmo em épocas de transições e de crises.

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Maria Tereza Maldonado
Fotógrafo: Edu Lissovsky | Desenvolvedor: forpix internet