Maria Tereza Maldonado
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Desmontando castigos


"Só tem quatro anos e simplesmente falou na minha cara que eu podia ficar com os carrinhos pra mim!", disse Cecília, atônita, quando o filho desmontou sua estratégia de privá-lo dos brinquedos preferidos porque havia dado um soco no irmãozinho. "Só bati de brincadeira, ele chora à toa!", argumentou Flávio, desconcertando ainda mais a mãe.

"Será que umas boas palmadas não seriam mais eficientes?", pergunta Cecília para, em seguida, lembrar-se de sua infância, quando desafiava a mãe dizendo "Pode bater mais, não doeu!".

As crianças conseguem habilmente desmontar estratégias de poder dos pais que querem castigá-las, mas podem desenvolver consideração pelos outros quando consistentemente propomos que descubram como lidar melhor com os outros: "Então está combinado: eu fico com os carrinhos até você pensar uma boa ideia para se divertir com seu irmão sem machucá-lo!".

Propor aos filhos que pensem como poderiam ter agido sem recorrer ao comportamento inaceitável estimula a busca de alternativas de ação, favorece o desenvolvimento da empatia, do respeito e da consideração pelos outros. Fortalece também a flexibilidade do pensamento e a criatividade: "Isso não pode, mas vamos descobrir outras coisas que você pode fazer". É mais fácil enfrentar a frustração de um "não" quando se convida a descobrir novas possibilidades.

"Você vai pegar outro brinquedo depois que guardar esses que estão espalhados": limites e consequências não têm por finalidade mostrar o poder dos pais, mas estimular a autorregulação, um aspecto essencial do desenvolvimento da responsabilidade.

É sempre bom lembrar que não há receitas rápidas nem infalíveis para criar filhos. Mas há recursos mais eficientes do que outros, nesse longo processo de estruturar a "inteligência de relacionamentos" nas inúmeras oportunidades oferecidas pelo convívio diário em família.

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Maria Tereza Maldonado
Fotógrafo: Edu Lissovsky | Desenvolvedor: forpix internet