Maria Tereza Maldonado
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Nutrindo o desejo


Gosto de reler autores que aprecio. Um deles é Machado de Assis, que capta tão bem as sutilezas emocionais dos personagens, os conflitos de relacionamento e, sobretudo, a nutrição do desejo. A atração que se acende quando o olhar descobre a alvura do braço da mulher, ou seu tornozelo subitamente revelado por um movimento indiscreto do vestido longo. O desejo que se incendeia por um toque breve e furtivo, pela troca discreta de olhares, por um bilhete enviado por um criado. Naquele tempo, o namoro das moças de família era estritamente vigiado e o desejo crescia e se nutria nos subterrâneos da imaginação, da fantasia, da transgressão cuidadosamente ocultada...

Com frequência, adolescentes e adultos me confidenciam que a "contabilidade" do fim de semana foi alta: beijaram mais de meia dúzia na festa, foi uma "pegação geral", vários números de celulares na agenda que vão gerar mais um ou dois contatos de "triagem", antes de serem definitivamente apagados da memória. O desejo se acende tão rápido que passa a ser o desejo pelo desejo, nem dá para ser o desejo por uma pessoa, contatos são feitos e descartados tão velozmente que abortam repetidamente embriões de relacionamentos.

Numa roda de conversa sobre relacionamentos afetivos, uma mulher na faixa dos 30 anos se queixava da "síndrome do quinto encontro" em que o cara "dá o bolo" ou, no máximo, uma desculpa esfarrapada, antes de sumir de vez. No final, os comentários, dos 18 aos 50: "Está difícil encontrar alguém legal..."

Uma loja de produtos eróticos anunciou no jornal um curso de quatro horas sobre masturbação e sexo oral. Certamente, incluiria uma apresentação de vibradores e outros brinquedos eróticos para incrementar o desejo. Será que falaram alguma coisa sobre o amor e sobre o imenso prazer de descobrir, pouco a pouco, o que mais agrada a ambos?

E a magia, o mistério, a arte da sedução, o fascínio de conhecer melhor a outra pessoa? A sutileza dos olhares, os matizes do toque, o fazer-se envolvente sem medo de se deixar envolver? As pessoas que se permitem descobrir o privilégio de um encontro mais profundo sabem que isso não saiu de moda, nem ficou perdido no século XIX...

Quando ouço homens e mulheres de todas as idades se queixando da frustração decorrente do vazio e da transitoriedade dos relacionamentos, penso que liberação sexual resulta, com frequência, em repressão da afetividade, em empobrecimento do desejo e em insatisfação. Em que extensão a liberdade sexual nos aprisionou na tirania do orgasmo e na ansiedade de desempenho? O fantástico crescimento das vendas de fórmulas afrodisíacas, dos brinquedos eróticos e das pílulas para estimular a ereção pode ser visto como sintoma da dificuldade de encontrar antigos caminhos que integram afeto e desejo. Em todos os tempos, o melhor afrodisíaco é abrir o coração...

Nas matérias sobre beleza em jornais e em revistas femininas, vejo a enorme importância dada à "embalagem": na busca ansiosa pelo corpo perfeito e pela eterna juventude, a ilusão de que isso garante o desejo (pode até facilitar o despertar, mas a continuidade depende de outro tipo de nutrição). Uma coisa é cuidar bem da aparência: pele, cabelos, exercícios físicos regulares, alimentação balanceada para manter a boa forma e a saúde.

Outra coisa é gastar muito mais tempo e dinheiro para aperfeiçoar o visual, descuidando do cultivo do encanto interior, da generosidade, da alegria contagiante, do desenvolvimento de habilidades básicas para construir um bom relacionamento, do preparo necessário para ter conversas interessantes e ser uma pessoa atraente (e não apenas um corpo atraente).

Ao reler o clássico "As mil e uma noites", fiquei novamente encantada pela magia das histórias envolventes de Cheherazade: o sultão Chahriar mandava matar todas as moças que ele desvirginava na primeira e única noite que passava com elas (os celulares apagados da memória logo após a primeira transa?), mas Cheherazade encantou o sultão com sua conversa, sua habilidade de contar histórias de modo envolvente, misterioso, empolgante, nutrindo o desejo. Após mil e uma noites, o sultão, inteiramente apaixonado por ela, desistiu de matá-la.

Que contraste entre esse universo da magia da sedução sem pressa e os contatos fugazes, rapidamente descartados sem a possibilidade da conversa que nutre o desejo!

O quanto esse comportamento de jogar fora as pessoas sem ao menos se dar o tempo de conhecê-las melhor reflete o consumismo que nos induz a procurar incessantemente as novidades do mercado? No excelente livro "Amor líquido" o sociólogo Zygmunt Bauman examina as características da "modernidade líquida" e seus efeitos nocivos sobre a capacidade de amar. Para ele, os consumidores de hoje compram por impulso, nem se dão ao trabalho de alimentar o desejo, uma vez que esse processo depende de tempo e paciência, coisas que não combinam com a cultura da satisfação imediata (penso nas crianças insistindo com os pais para ir ao shopping comprar "alguma coisa"). Muitos estão fazendo o mesmo com os relacionamentos rapidamente consumidos e descartados: começam e terminam no impulso, sem tempo de nutrir o desejo e desenvolver o amor.

Diz Bauman: "Afinal, automóveis, computadores ou telefones celulares perfeitamente usáveis, em bom estado e em condições de funcionamento satisfatório são considerados, sem remorso, como um monte de lixo no instante em que novas e aperfeiçoadas versões aparecem nas lojas e se tornam o assunto do momento. Alguma razão para que as parcerias sejam consideradas uma exceção à regra?" Vale a pena refletir mais a fundo sobre o tema...

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Maria Tereza Maldonado
Fotógrafo: Edu Lissovsky | Desenvolvedor: forpix internet