Maria Tereza Maldonado
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Na intimidade das famílias


"Cá entre nós – na intimidade das famílias" foi publicado no ano de 2006, marcando 35 anos de prática clínica. Resolvi organizar esse livro como uma coletânea de textos que podem ser lidos independentemente, abordando os temas mais mencionados nas consultas, nas conversas com o público após as palestras, nas mensagens dos leitores e nos projetos sociais em que atuo.

Os dilemas da modernidade nos trazem muito mais dúvidas e perguntas do que certezas e respostas, a começar pela própria diversidade das composições familiares: como lidar com filhos de diferentes uniões? E com os ex-parceiros? E com os filhos adultos que não saem de casa? Como transmitir desde cedo os princípios básicos do gerenciamento de conflitos, instrumento essencial para viver na sociedade de redes, em que tudo está cada vez mais interligado e interdependente? Como construir vínculos sólidos em contextos voláteis? Ou criar alternativas inovadoras para estar presente, mesmo na ausência?

Educar para fazer boas escolhas, desenvolver a responsabilidade e o espírito empreeendedor (treinar o olhar para perceber as oportunidades e a iniciativa para "fazer acontecer", transformando sonhos em projetos que resultem em ações eficazes), incentivar a cooperação e a partilha das tarefas na "equipe familiar", administrar as agendas sobrecarregadas (dos adultos e das crianças) para criar tempo significativo de convívio, ampliar a área de interesses comuns para a troca de ideias entre gerações (inclusive de irmãos), estimular a flexibilidade para adaptar-se a diferentes contextos. Esses são alguns dos desafios que as famílias do século XXI precisam encarar para fazer face à complexidade do mundo pós-moderno.

A globalização e o aumento do fluxo migratório estão criando uma nova dinâmica familiar nas diversas culturas, sociedades e religiões do nosso "mundo plano", nessa era de incerteza e imprevisibilidade. Nesses novos grupos sociais, os valores são plurais, multiétnicos e multiculturais. A capacidade de captar e compreender outros pontos de vista, a rapidez do ajuste a cenários mais desfavoráveis, a disposição de ser um eterno aprendiz que se atualiza constantemente são instrumentos essenciais do "kit de sobrevivência" no novo milênio.

É na intimidade das famílias que começamos a alfabetização para aprender a conviver com a diversidade e a resolver impasses e conflitos que surgem a partir das diferenças. É no cotidiano da vida em família que aprendemos a prática da afetividade; a lidar com a raiva, a tristeza e a frustração; a praticar a difícil arte da escuta respeitosa, tão essencial para a construção dos acordos de bom convívio. Aí se encontram oportunidades e recursos inestimáveis para desenvolver as habilidades básicas de relacionamento. É preciso acreditar na competência das famílias e na possibilidade de expandir o que funciona bem, mesmo nas famílias que enfrentam muitos problemas.

Em parceria com a escola, as famílias podem construir com mais eficácia os alicerces da educação de cidadãos globais que poderão conviver bem com a diversidade, reconhecendo a semelhança essencial entre todos os seres humanos. É na intimidade das famílias que germinam as sementes do amor, da cooperação e da solidariedade.

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Maria Tereza Maldonado
Fotógrafo: Edu Lissovsky | Desenvolvedor: forpix internet