Maria Tereza Maldonado
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Superando o medo


Fui pela quarta vez a Fernando de Noronha, um dos lugares mais lindos que conheço. Foi lá que iniciei o curso de mergulho (terminei em Ilha Grande, outro lugar de paixão). Como mergulhadora certificada, voltei a Noronha há dois anos, fiz alguns mergulhos tranquilamente e entrei em pânico em Pedras Secas, lugar de mar aberto,"sonho de consumo" dos mergulhadores por ser incrivelmente bonito e porque é difícil os barcos conseguirem autorização para chegar lá.

Foi um prêmio do qual não consegui desfrutar: condições de mergulho mais difíceis, maior profundidade à qual eu estava acostumada, entrou água no respirador, eu me apavorei e, imediatamente, esqueci o procedimento simples e eficaz; fiz sinal para o guia pedindo para subir; na superfície, temi o mar agitado, não consegui inflar o colete (outro procedimento elementar), engoli água, achei que ia morrer afogada; o barco custou a chegar, o guia tentando me acalmar, eu apavorada. Subi frustrada, principalmente depois que os outros mergulhadores descreveram o cenário deslumbrante. Não consegui me recompor para o segundo mergulho do dia, em águas calmas.

Um mês depois, fui mergulhar em Ilha Grande para me curar do trauma de Pedras Secas. O "dive master" foi um anjo da guarda, me refrescando a memória dos procedimentos, mergulhando a dez metros em mar tranquilo. Recuperei a confiança.

Janeiro de 2008: depois de dois dias de "snorkel" em Baía dos Porcos e no Sueste, vendo lagostas, tartarugas, peixes e corais, agendei uma saída com dois mergulhos de cilindro. Nunca se sabe de antemão onde serão, depende das condições climáticas. Assim que entrei no barco, encontrei a equipe eufórica: os dois pontos de mergulho seriam em Pedras Secas!

Gelei: as imagens anteriores voltaram imediatamente. Falei com o grupo sobre meu trauma. De imediato, consegui alguns "anjos da guarda" que prometeram cuidar de mim para que eu pudesse aproveitar os mergulhos. A água estava azul-anil, absolutamente límpida com ondas grandes. Resolvi encarar o medo.

Já descendo, avistando o primeiro cardume, as imagens da descida anterior voltaram, fiquei angustiada, a respiração acelerou, o anjo da guarda que estava me dando a mão fez sinal para eu respirar mais lentamente, me mostrou outros peixes. Consegui superar o medo e me sentir integrada nesse outro mundo.

Foram dois mergulhos inesquecíveis: admirei os arcos de calcário, belas esculturas submarinas, cavernas, jardins de algas, corais e peixes multicoloridos, tartarugas e um pequeno tubarão. Um cenário surreal, onírico. Emergi profundamente emocionada, as imagens da beleza mais fortes do que as do medo. São essas imagens que agora habitam minhas lembranças de Pedras Secas. Sei que me darão força cada vez que eu precisar atravessar as trevas do medo.

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Maria Tereza Maldonado
Fotógrafo: Edu Lissovsky | Desenvolvedor: forpix internet