Maria Tereza Maldonado
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Educando para a paz e a solidariedade


"Criar filhos pacíficos e solidários em um mundo violento? Crianças que gostem de cooperar e não só de competir? Não sobreviveriam, não saberiam se defender, não conseguiriam conquistar um lugar viável no mercado de trabalho!" Esse é o temor expresso por muitos que pensam que "preparar os filhos para a vida" quase equivale a prepará-los para a guerra.

Um dos grandes desafios do século XXI é continuar descobrindo caminhos eficazes para ajudar crianças e jovens a crescer com a capacidade de construir a paz e a solidariedade em um mundo com tantos episódios de violência não apenas contra eles, mas também entre eles.

O desenvolvimento de uma criança que se tornará uma pessoa pacífica, solidária e participativa requer a consolidação de características múltiplas e complexas, muitas das quais estão incluídas nos conceitos de "inteligência emocional" e de "inteligência social": olhar os conflitos como desafios para criar saídas e soluções razoáveis para todos os envolvidos; capacidade de empatia; pensamento sistêmico; facilidade de trabalhar com grupos e em equipe; capacidade de liderança e de tomar iniciativas; disposição para superar dificuldades e obstáculos. Ou seja, posturas ativas e dinâmicas que estão sendo cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho. Longe de uma postura de submissão, conformismo ou pasmaceira.

Claro que nem todas as pessoas desenvolverão igualmente todas essas características, mas este é o conjunto que definiria a postura de uma paz ativa e participativa.

Na evolução do conceito de paz chegou-se a uma visão holística, em que construir a paz no cotidiano de nossas vidas equivale a um trabalho ativo ao redor de três eixos: aprender a cuidar bem de nós mesmos, dos outros e do ambiente em que vivemos. Em essência, isto significa expandir a capacidade amorosa e canalizar o potencial agressivo para fins de assertividade e persistência para alcançar as metas propostas.

Quando examinamos o estado do mundo, vemos um cenário desolador em que há muitos tipos de violência, desigualdade social, consumo predatório de recursos finitos, e o crime globalizado que nos aterroriza. Mas vemos também um cenário esperançoso, com a possibilidade de construir uma globalização em outros moldes, facilitada pela democratização do acesso à informação que pode incrementar o trabalho cooperativo e o reconhecimento da humanidade como um todo. Isso poderá resultar na implantação de um novo modelo econômico, social e político que conduza à realização de uma vida coletiva solidária.

No cenário das descobertas científicas sobre o desenvolvimento humano, destaca-se o conceito de competência do bebê e da criança pequena, de sua capacidade de formar vínculos desde muito cedo. O cérebro é um órgão social: o ser humano já nasce equipado para vincular-se. O desenvolvimento da empatia, as sementes da solidariedade e da expansão amorosa começam a germinar nos primeiros anos de vida. É preciso reconhecer a sabedoria das crianças, a competência das famílias e o poder dos pequenos gestos e ações do cotidiano como contribuições essenciais para a grande mudança da consciência coletiva da humanidade que, por força do que nos mostra o cenário desolador, tornou-se uma medida de sobrevivência da espécie.

Ter flexibilidade de pensamento para rever conceitos e redefinir prioridades, desenvolver o espírito inovador e empreendedor, refletir sobre as contribuições que cada um pode oferecer para a coletividade, mostrar disposição para cooperar mais do que para competir, ter visão sistêmica e resiliência para encarar as adversidades mantendo a fé na possibilidade de vislumbrar saídas melhores que propiciem um verdadeiro bem-estar coletivo: estas são características essenciais para viver no século XXI, tão marcado por instabilidades, riscos e incertezas.

A solidariedade, a cooperação e o trabalho em equipe para cuidar da coletividade são essenciais. Para isso, precisamos rever nossas práticas de vida para conseguirmos preparar as novas gerações para atuar nessa direção, buscando qualidade de vida em contextos de densidade populacional. O mundo hiperconectado e com bilhões de habitantes convive, em tempo real, com uma imensa gama de diferenças com as quais é preciso conviver, com o máximo de cooperação possível, buscando paz e harmonia. A violência é aprendida e o respeito também é. Somos nós que decidimos de que modo vamos nos comunicar. Além da geração X,Y,Z, precisamos educar a Geração P – os construtores da paz!

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Maria Tereza Maldonado
Fotógrafo: Edu Lissovsky | Desenvolvedor: forpix internet