Maria Tereza Maldonado
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A riqueza na base da pirâmide


Quero manter a esperança de que é possível cuidar melhor da família humana. Por isso, estou cada vez mais interessada em descobrir caminhos promissores para reduzir a exclusão e a desigualdade social. Além de participar diretamente de alguns projetos sociais e de conhecer outros tantos, gosto de ler sobre o tema. Um dos livros que me causaram maior impacto pela originalidade das ideias e pela apresentação de experiências bem-sucedidas é o de C.K. Prahalad, The fortune at the bottom of the pyramid – Eradicating poverty through profits (Wharton School Publishing, 2005).

A ideia central é criar o "capitalismo inclusivo": as grandes empresas, com sua tecnologia, economia de escala e recursos podem se associar a entidades da sociedade civil e aos governos locais no sentido de criar soluções conjuntas para melhorar a vida dos bilhões de pessoas que vivem com menos de US$ 2 por dia, transformando-os em consumidores ativos e conscientes, respeitados e bem atendidos por produtos e serviços de boa qualidade e baixo custo. Nessa mudança de abordagens e estratégias, todos ganham: o empreendedorismo da população de baixa renda é estimulado em larga escala, as possibilidades de ascensão são aumentadas pelo fácil acesso ao crédito e pelos projetos de geração de renda e as empresas lucram com a rápida expansão do mercado na base da pirâmide.

O começo de tudo é a mudança do olhar: deixar de considerar os pobres como vítimas a serem socorridas por políticas assistencialistas e vê-los como pessoas resilientes e empreendedoras, com estratégias de sobrevivência em condições extremamente precárias. O enfoque nas competências e nos pontos fortes da população de baixa renda descortina um mundo de oportunidades para a prosperidade e inspira inovações em tecnologia, produtos, serviços e modelos de negócios baseados em um conhecimento mais profundo das características e necessidades dessa população. Melhor do que descobrir maneiras de ajudar os pobres é tratá-los como parceiros para criar um novo paradigma de fazer negócios, melhorando o padrão de vida das comunidades e a lucratividade das empresas por meio da grande expansão desse mercado.

As experiências bem-sucedidas em vários países (Índia, Brasil, Peru, México) foram feitas por bancos que abriram acesso ao microcrédito (principalmente para grupos de mulheres), empresas de construção de casas populares, instituições de saúde que criaram um modelo de prótese de membros inferiores altamente eficaz e de baixíssimo custo, associação de grandes empresas de produtos de limpeza, ONGs e Ministério da Saúde para campanhas de conscientização da importância dos hábitos de higiene para reduzir a incidência de diarreia e doenças contagiosas.

As estratégias básicas para atingir esse mercado são:

Tudo isso precisa fazer parte do planejamento estratégico das empresas, e não ser visto apenas como ações colaterais. As áreas de atuação são diversas: saúde, agricultura, microcrédito, energia alternativa. As inovações dos modelos de negócios dependem de visão, liderança, abordagens adequadas e instrumentos eficientes para estimular o desenvolvimento local e o empreendedorismo, melhorando o nível de informação para que a população de baixa renda possa descobrir canais mais eficientes de negociação.

O mercado da base da pirâmide representa 80% da humanidade e essas pessoas desejam uma melhor qualidade de vida. O envolvimento do setor privado em múltiplas parcerias pode resultar em ganhos expressivos para essa população e também para as empresas e outras organizações. As experiências apresentadas no livro de Prahalad mostram claramente que a criação e a expansão do mercado na base da pirâmide podem contribuir expressivamente para a redução da pobreza, promovendo a geração de renda e o desenvolvimento local sustentável.

As mulheres desempenham um importante papel nesse desenvolvimento e estão na vanguarda da transformação social. Várias experiências bem-sucedidas de microcrédito dão empréstimos apenas para grupos de mulheres: o índice de inadimplência é baixíssimo. As inúmeras mulheres empreendedoras que integram as empresas de vendas porta-a-porta no interior dos países em desenvolvimento aprendem rapidamente a utilizar o acesso à tecnologia e, com isso, aumentam sua eficiência de comunicação em redes sociais.

Os problemas da população da base da pirâmide não são novos, mas representam novos desafios, tais como encontrar soluções eficientes com boa qualidade e custos acessíveis, atendendo às demandas específicas de quem tem pouco acesso à educação formal e vive em contextos que oferecem infraestrutura precária.

A grande esperança é que a figura da pirâmide populacional que retrata a profunda desigualdade da distribuição de renda possa se transformar na figura de um diamante: melhorando as condições de vida da população da base da pirâmide, a maior parte da humanidade poderá, no futuro, concentrar-se na classe média, construindo uma sociedade mais justa.

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Maria Tereza Maldonado
Fotógrafo: Edu Lissovsky | Desenvolvedor: forpix internet