Maria Tereza Maldonado
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publicação interna da Livraria Cultura


Mestre em Psicologia Clínica e membro da American Family Therapy Academy, Maria Tereza Maldonado atua há 35 anos como psicoterapeuta e consultora familiar. Autora de mais de 25 livros, entre eles Cá entre nós – Na intimidade das famílias e o recém-lançado Palavra de mulher – Histórias de amor e de sexo, que escreveu em parceria com a filha, Mariana Maldonado, ela fala dos aspectos positivos e das dificuldades que afetam as relações familiares nos dias de hoje. A seu ver, é essencial estabelecer "acordos de bom convívio" e não confundir "democracia doméstica" com desordem, desrespeito ou falta de hierarquia.

Quando começaram a ocorrer mudanças fundamentais na estrutura familiar?

A partir da década de 1980, com o aumento dos índices de divórcio e novas uniões, os profissionais que estudam as famílias têm se dedicado a aprofundar o exame das características, possibilidades e dificuldades específicas de cada tipo de organização familiar. Em linhas gerais, a conclusão é que há lares harmônicos e desarmônicos em todas as maneiras de ser família.

O que mais caracteriza as relações familiares nos dias atuais?

O compromisso de se responsabilizar pelo bem-estar uns dos outros. Isso aconteceu porque um grande número de famílias passou a se constituir sem a base dos "laços de sangue", mostrando que os laços de amor e de compromisso não dependem de parentesco. Em muitos casos, inclusive, as condutas de maus tratos contra crianças e adolescentes são atitudes dos pais biológicos.

A seu ver, o que essa evolução trouxe de mais positivo?

As mudanças mostraram que há várias maneiras possíveis de construir laços de afeto e de cuidados. Antes, predominava a visão de que "famílias estruturadas" eram as compostas por pais casados e seus filhos; todas as outras organizações familiares (com pais solteiros, separados ou em novas uniões) eram consideradas desestruturadas. Atualmente, já existe um consenso de que essa visão é preconceituosa.

Quais os pontos negativos dessa revolução nas bases familiares?

A impulsividade e a dificuldade de tolerar as diferenças. O fato de o divórcio e as novas uniões serem mais aceitos pela sociedade faz com que muitos casamentos terminem prematuramente, de modo impulsivo e impensado, sem que as pessoas mergulhem mais fundo nas possibilidades de o relacionamento sobreviver a crises e a períodos de insatisfação. Como vivemos na "era do descartável", da transitoriedade e das mudanças rápidas, isso se reflete em muitos relacionamentos, descartados no momento em que surgem os primeiros sinais de desgaste e de insatisfação.

As relações familiares têm condições de ser mais autênticas e saudáveis nesse novo contexto?

Sim, pela maior abertura de conversar sobre temas antes considerados proibidos. A relação baseada no medo da autoridade e na submissão evoluiu para uma relação de respeito e consideração. Isso acontece quando as pessoas conseguem estabelecer em suas famílias as bases da "democracia doméstica", que permitem fazer "acordos de bom convívio", levando em conta as necessidades de todos.

O que acha que precisaria ser repensado nessa questão?

A confusão que ocorre com frequência entre "democracia doméstica" e desordem, desrespeito e falta de hierarquia. Muitos pais, temendo ser autoritários, passaram a não cuidar da hierarquia, que tem a ver com a noção de maiores responsabilidades assumidas. Como diz o ditado inglês, "jogaram fora o bebê junto com a água do banho". Confundindo conceitos de "liberdade e espontaneidade", permitem que os filhos, quando enraivecidos ou frustrados, xinguem, batam e tenham condutas desrespeitosas e inaceitáveis. Há muitas maneiras de expressar descontentamento ou discordância sem esses ataques que prejudicam o desenvolvimento da civilidade e da inteligência emocional.

O fato de haver mais diálogo é benéfico para o entrosamento entre as duas gerações?

Quando o diálogo é aberto e respeitoso, proporciona excelentes oportunidades de aprender a gerenciar conflitos, a pensar juntos saídas para os impasses, a ouvir e a perceber os outros em suas necessidades, a conviver com a pluralidade de pontos de vista sobre os fatos. Nesse sentido, as pessoas das diferentes gerações descobrem que podem aprender muito umas com as outras.

Atualmente os jovens demoram mais a amadurecer? Por quê?

Por exercitarem de modo insuficiente a responsabilidade e a partilha das tarefas. Antes, "criança não tinha vez nem voz" e tinha de acatar as ordens dos adultos; agora, tem muitos direitos e poucos deveres. Muitos pais, literalmente, fazem tudo pelos filhos: guardam os brinquedos espalhados, as roupas que ficam jogadas pelo chão, arrumam a casa sozinhos, fazem as compras no mercado e providenciam as refeições. Não solicitam e nem contam com a colaboração dos filhos. A mão dupla do dar-e-receber não se desenvolve satisfatoriamente: nesses casos, os filhos crescem centrados na realização de seus próprios desejos, sem contribuir efetivamente para as tarefas que envolvem o funcionamento de uma casa e sem perceber que os adultos estão sobrecarregados. Aí, fica difícil amadurecer.

Por que eles relutam tanto em sair da casa dos pais e assumir os próprios compromissos?

Porque foram criados com muitas mordomias e não querem abrir mão disso para batalhar pela própria vida. Há filhos adultos que trabalham e gastam todo o dinheiro que ganham consigo mesmos, sem contribuir com coisa alguma para pagar as contas da casa. Além disso, esperam que tudo seja providenciado e reclamam quando falta o queijo ou o iogurte preferido na geladeira, sem sequer tomar a iniciativa de comprá-los. Mas nem todos são assim: há filhos adultos que continuam morando com os pais e estabelecem com eles uma relação de cooperação e partilha de cuidados e responsabilidades.

O que considera mais importante para se ter harmonia na vida familiar?

Amor, respeito, consideração e solidariedade.

Por que hoje há maior incidência de separações?

A facilidade maior das separações surgiu a partir das mudanças de como as pessoas passaram a encarar o casamento e sua dissolução. Antes, muitas pessoas permaneciam casadas mesmo quando se sentiam profundamente infelizes ou quando sofriam maus tratos, porque era "feio" se separar e muito duro enfrentar o preconceito que cercava "os desquitados". Outro diferencial importante foi a entrada da mulher no mercado de trabalho. Quando ela não depende economicamente do homem para sobreviver, fica mais fácil desacreditar do velho ditado: "r