Maria Tereza Maldonado
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A prevenção da violência pela construção da paz


Humanidades - Como caracteriza a violência enquanto fenômeno do nosso cotidiano? A violência é inata aos humanos em sociedade?

- A raiva é uma das emoções humanas básicas, necessária à sobrevivência. Quando canalizada e bem direcionada, forma a base da capacidade de ser assertivo, de lutar por objetivos e de defender-se quando atacado. No entanto, quando a reação agressiva fica fora de controle, surgem as condutas violentas.

É importante enfatizar que ninguém nasce violento, embora o impulso agressivo faça parte da natureza humana. É preciso construir firmemente a mentalidade de que a violência é inaceitável. Sendo a violência um comportamento aprendido nos processos sociais entre pessoas, instituições e sociedades, pode ser desaprendida. É possível elaborar formas de resolver conflitos por meios pacíficos.

A violência doméstica não existe apenas nas camadas economicamente menos favorecidas da população, acontece também nos lares da classe média e alta. Constatam-se não somente os episódios de violência contra a criança e o adolescente, mas também a violência da criança e do adolescente, inclusive no contexto escolar. Os índices de violência dentro de casa, nas escolas e nas comunidades estão em ascensão, assumem maior visibilidade e, portanto, torna-se urgente organizar ações para reverter esta tendência e intensificar os esforços de construção da paz para formar novas gerações não-violentas.

Tanto a violência doméstica quanto a violência social atingiram proporções tão assustadoras na maioria dos países que passaram a ser consideradas como um problema de saúde pública.

Humanidades - Quais os fatores que determinam o aumento dos comportamentos violentos?

- Miséria e desemprego - Especialmente em países com profundas desigualdades sociais. Falta de moradia, fome, violência nas ruas, políticas públicas deficientes na área educacional, o aliciamento de crianças e jovens para o tráfico de drogas são fatores de risco para o incremento da violência.

- Gravidez de adolescentes - Em grande número de casos resulta em maior incidência de depressão, falta de capacidade de cuidar e de sustentar a criança, falta de apoio social, menores oportunidades de prosseguir os estudos ou conseguir empregos, desvantagem socioeconômica. A conjunção destes fatores coloca a relação mãe-filho na área de risco de violência doméstica.

- Uso abusivo de álcool e de outras drogas lícitas e ilícitas - O alcoolismo, sobretudo quando associado à facilidade de acesso a armas de fogo e à dificuldade do controle da agressividade, aumenta dramaticamente o índice de homicídios. Entre os jovens, já é a principal causa de mortalidade em alguns países.

- Fácil acesso a armas de fogo - Aumenta não só o número de homicídios como também o de suicídios, inclusive na adolescência.

- Abandono e negligência das crianças - A dor da rejeição, do abandono e da negligência gera frustração, insatisfação crônica das necessidades básicas e baixa autoestima. Para um grande número de crianças, a carência do amor e da "nutrição afetiva" cria condições propícias para o nascimento do ódio e da revolta que desembocam em condutas violentas e em condutas antissociais.

- A exaltação da violência na mídia - Há muitos estudos sobre os efeitos nocivos da excessiva exposição de crianças e adolescentes à violência nos meios de comunicação. Para muitos, isto encoraja a identificação com modelos agressivos "bem- sucedidos", estimulando a crença de que a violência é um método aceitável de resolver conflitos.

- Cultura da impunidade e falta de assistência do Estado - A falta de investimentos do orçamento governamental nas áreas de educação, saúde e segurança facilita o surgimento de "poderes paralelos", especialmente vinculados ao tráfico de drogas que cria um "Estado dentro do Estado", facilitando a escalada da violência; a impunidade frente aos episódios de corrupção e abuso do poder também são fatores que contribuem para o incremento da violência.

Humanidades - Que instrumentos pragmáticos podem ser usados pela sociedade para prevenir a violência?

- Programas de geração de empregos, de renda mínima para as famílias que se comprometem a manter as crianças na escola, maior investimento em saúde e educação são exemplos de ações essenciais para maior justiça social e prevenção da violência.

- Programas eficazes de orientação, acesso a meios anticoncepcionais para prevenção da gravidez indesejada e equipes multidisciplinares de atendimento à adolescente grávida são medidas essenciais para minimizar os riscos de distúrbios emocionais nesta faixa etária tão importante na formação da pessoa.

- Projetos de prevenção da violência doméstica e programas que abram caminhos de profissionalização e capacitação para a construção de metas de vida e de trabalho são fundamentais. As sugestões de pautas de ação variam desde a orientação às famílias para restringir ao máximo a exposição de crianças e jovens à violência na mídia criando outras alternativas de lazer até a criação de campanhas do tipo "Desligue a Violência" para fazer pressão junto aos produtores de programas e exibidores de filmes para melhorar a qualidade do que oferecem.

Humanidades - Que papel cabe ao Estado? E às comunidades?

- Sendo o fenômeno tão complexo, as ações que têm por objetivo a redução e a prevenção da violência precisam acontecer a partir das organizações governamentais e não-governamentais e da sociedade civil como um todo. Ou seja, todos nós precisamos nos conscientizar do nosso papel como construtores da paz, dentro da concepção mais atual, que é a visão holística: a paz é um processo dinâmico que inclui a busca da paz interior (a serenidade que dá força para enfrentar as dificuldades), da paz com os outros (aprendendo a resolver conflitos por meios não-violentos) e com o meio ambiente (cuidar da preservação do lugar em que vivemos). Quando a UNESCO lançou, em 1994, o Programa Mundial de Cultura da Paz, defendeu claramente a ideia de que precisamos trabalhar no sentido de mudar a mentalidade das pessoas para que a humanidade, condicionada durante séculos a viver numa cultura de guerra, possa trabalhar pelo seu direito de viver numa cultura da paz. Neste sentido, todos nós temos um grande trabalho pela frente.

Humanidades - Quer concretizar?

- Há muitos programas, em vários países, que estão apresentando resultados positivos na prevenção da violência. Os pontos em comum destes programas que caracterizam a "educação para a paz" são:

Humanidades - Quais os recursos de comunicação que podem ser usados, com o objetivo citado de construir a paz?

- Ouvir com atenção, consideração e sensibilidade, criando a compreensão empática; atacar o problema e não a pessoa, porque as expressões ofensivas magoam, agridem e geram hostilidade; usar a criatividade na busca de soluções para resolver impasses e conflitos, estimulando a cooperação para formar os "acordos de bom convívio"; controlar a agressividade que faz a pessoa "perder a cabeça", dizendo ou fazendo coisas das quais se arrepende depois; dizer o que gosta com relação ao que os outros dizem ou fazem, para criar um clima de harmonia e bem-estar; descarregar as tensões inevitáveis de modo saudável (prática de esportes, técnicas de relaxamento ou de meditação); tolerar as diferenças; usar métodos não violentos para colocar limites e estimular a disciplina.

Humanidades - Num parágrafo apenas, quer referir o papel e as precauções a tomar, em relação aos veículos de comunicação?

- A tecnologia nos permitiu comunicação ampla e conexão imediata nos quatro cantos do mundo. É uma maravilha, quando bem utilizada. No entanto, um número enorme de pessoas se queixa de solidão, pois a conexão possibilitada pela tecnologia não garante a conexão emocional entre as pessoas. Nada, portanto, substitui o valor da conversa, da paciente construção dos vínculos de amor e paz com as pessoas significativas para a nossa vida.

Nessa entrevista, mencionamos as habilidades básicas a serem desenvolvidas para que as pessoas atuem como construtores da paz em seus relacionamentos. Para colocar em prática essas habilidades é importante prestar atenção às "miudezas do cotidiano", tanto na família quanto na escola e no grupo social. Os grandes temas da vida e os valores fundamentais que possibilitam a paz e o bom convívio - cooperação, gentileza, consideração, generosidade, solidariedade - são desenvolvidos a partir das pequenas situações do dia-a-dia do relacionamento entre as pessoas, no contexto da família, da escola, do trabalho e da vida em comunidade.

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Maria Tereza Maldonado
Fotógrafo: Edu Lissovsky | Desenvolvedor: forpix internet